A Casa do Último Abraço
A névoa fina da manhã cobria a pequena cidade como um véu de lembranças, quando Miguel cruzou novamente a ponte de madeira que marcava a entrada de sua antiga vida. Fazia vinte e três anos que ele não pisava ali. Vinte e três anos desde o último abraço que dera em Helena, o amor que deixara para trás quando decidiu seguir outro caminho. Agora, retornava não por saudade, mas por um chamado urgente: o desaparecimento de uma jovem, ocorrido de forma tão estranha quanto inquietante.
A notícia chegara até ele por acaso, durante uma transmissão de rádio em uma estrada qualquer. O nome da desaparecida não lhe despertou memória alguma, mas a foto, essa sim, fez seu coração parar. O rosto jovem, os olhos castanhos luminosos, a expressão de delicada firmeza… Miguel reconheceu imediatamente: era o rosto da filha que Helena um dia mencionou esperar, naquela última conversa, quando ele partia e ela, entre lágrimas, revelava que talvez estivesse grávida. Ele nunca soube o desfecho daquela história. Jamais teve coragem de perguntar. E agora, ali, encarava a possibilidade de que aquela jovem fosse sua filha perdida e estivesse em perigo.
Ao chegar à cidade, percebeu que o tempo havia mudado pouco daquele cenário. As fachadas antigas permaneciam firmes, embora gastas. O cheiro de terra molhada e madeira envelhecida ainda dominava o ar. No entanto, havia algo mais: uma sensação pesada, como se a cidade inteira sussurrasse segredos que preferia manter ocultos.
Miguel foi direto à delegacia, onde o delegado Álvaro, velho conhecido de infância, o recebeu com surpresa e desconfiança. As investigações estavam em curso, mas poucos avanços tinham sido feitos. A jovem chamada Isadora desaparecera na noite anterior ao festival anual da cidade, após ser vista caminhando em direção ao casarão abandonado que todos chamavam de A Casa do Último Abraço. O nome vinha de uma lenda local que dizia que o casarão guardava memórias de despedidas e reencontros que nunca chegaram a acontecer.
Para Miguel, aquilo não era apenas uma história folclórica. Ele conhecia bem o casarão. Foi ali que se despediu de Helena pela última vez, num abraço que jurou jamais esquecer.
Decidido, ele caminhou até o local antes que o sol se pusesse. O casarão, embora decadente, permanecia imponente. As janelas quebradas pareciam olhos cansados, observando tudo com um ar de lamento. Assim que entrou, o chão rangeu sob seus passos, como se a casa reconhecesse sua presença.
Ao explorar os cômodos, Miguel encontrou vestígios de alguém que estivera ali recentemente: uma pulseira, pegadas na poeira, um caderno com anotações dispersas. Algumas frases chamaram sua atenção eram trechos sobre identidade, pertencimento e dúvidas sobre o passado. Isadora buscava respostas… talvez as mesmas respostas que ele enterrou há décadas.
Enquanto a noite caía, Miguel sentiu a presença de lembranças antigas envolvendo cada parede, e compreendeu que somente enfrentando a própria história poderia encontrar a jovem. E, quem sabe, descobrir a verdade sobre o amor que abandonou e a filha que talvez o destino tivesse lhe devolvido.
No silencioso casarão onde despedidas se tornavam ecos eternos, Miguel percebeu que o último abraço que pensou ter dado talvez fosse apenas o primeiro capítulo de um reencontro inevitável.
“Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.”







