A formação na era da aceleração
Por: Bruno Olivatto
Nesta coluna de hoje, eu gostaria de dividir algumas percepções pessoais sobre a nossa formação neste tempo inédito no qual estamos vivendo Entre outros ineditismo possíveis de se tratar, quero me ater aqui à questão da condição de aceleração ao qual todos estamos imersos. A dimensão do ato de pensar o fenômeno da formação – via de regra – é ocupação profissional de educadores, especialmente pedagog@s e licenciad@s, mas acredito que não deveria ser reduto apenas dest@s. Pensar sobre como a cultura contemporânea – muito expressivamente digital – tem alterado o jeito de sermos no mundo precisa ser investimento de tempo reflexivo de todos nós… afinal estamos todos neste tempo histórico de radicais modificações dos nossos comportamentos.
Esse tempo acelerado tende a produzir, por consequência, um sujeito esvaziado. Mas por que uma coisa levaria a outra? Bem, é preciso lembrar que estamos todos sob um regime de governo econômico global, financeirizado, suportado na maquinaria algorítmica que precisa fazer o capital girar… e, para isso, o consumo tem que ser ligeiro, a comunicação tem que ser ligeira, a leitura tem que ser veloz, não se pode “perder” tempo algum… porque nos ensinaram que ‘tempo é dinheiro’… mas tempo, na verdade, é vida! Pois bem, nessa lógica frenética, tudo vira mercadoria, inclusive nosso olhar ao consumir notícias sem fim nos feeds das redes sociais, especialmente. E nessa toada, a nossa formação também tem que ser aligeirada! Pra quê vídeo de mais de 10min se pode-se acessar um de 03 minutinhos? Pra quê ler um livro inteiro se podemos acessar o resumo dele? Pra que escrever textão no zap (e ‘perder’ tempo) se podemos gravar um áudio… desde que não seja um podcast de 5 minutos, claro!!!
Então, observe, tudo tem que ser muito rápido! Se você tem algo a me dizer, seja breve, ora bolas! Mandou uma mensagem no zap, o destinatário já viu o conteúdo, ou seja, já deu 2 tracinhos, e já tem quase meia hora e a pessoa não respondeu nada??? Que desconsideração! Que falta de respeito! Nem pode avisar que está ocupado e não consegue responder??? Absurdo me deixar sem resposta quando já sei que o outro viu a mensagem!!!
Se a gente pensar nos cursos e palestras, hummm… o mesmo fenômeno da impaciência se expressa. Ou seja, os cursos têm que ser cada vez mais curtos e “objetivos”. Está-se, pouco a pouco, conformando um coletivo social que tende a ficar inquieto e agoniado por ser provocado a pensar mais densamente, mais lentamente. Isso nos esvazia do essencial gradativamente. A contradição deste paradigma social é que a velocidade não se coaduna com a qualidade dos fazeres e pensamentos. Nesse caso, a formação se deforma num cenário onde tudo é feito para ser vivido rapidamente. É preciso sermos sujeitos do contra-fluxo, andar na direção oposta daquela que nos empurram, sob pena de vivermos e alimentarmos a ilusão da informação ao invés experienciação da formação. Excesso de notícias não garante boa formação, pelo contrário, pode colapsar meu pensamento. A formação advém com o poder da clareza em meio a tantos fragmentos soltos de informações.
Formação nos altera, nos desloca… nos faz pensar sobre o vivido e, portanto, modifica minha experiência de mundo! Eu e você precisamos de mais formação e menos informação. Perceba, estamos cada vez menos inteiro nas práticas sociais, exatamente porque tudo tem que ser feito aligeiradamente… já que nos ensinam a ter que fazer sempre muitas coisas ao mesmo tempo. E mais… nos convencem de que se não somos multitarefas, somos fracassados porque não conseguimos fazer o que todos conseguem. Mas será que todos conseguem mesmo ou tudo não passa de um simulacro de produtividade sob a falsa sensação de hiper capacidade versátil?
Encurtar – para que a experiência seja rápida – é o padrão atual para tudo! Até abreviar o sono nos é incentivado… afinal, dormir menos me permite fazer mais coisas! Estamos definitivamente na contramão da humanidade sadia! Nessa direção só adoeceremos! Dito de outro modo, encurtar as experiências minimiza as possibilidades de formação, uma vez que nunca nos sobra tempo para exercitar a lentidão que o pensamento verticalizado/aprofundado exige. Fique atent@, pois quando uma empresa adiciona um recurso no seu sistema que permite que você ouça tudo na velocidade 1.5x ou 2x…. ela está transformando sua experiência sensorial completamente. Ela está lhe ensinando a ser uma máquina, não um humano. A experiência estética, por exemplo, é completamente modificada quando assistimos um filme ou ouvimos um podcast numa velocidade que não é a da origem. Parece algo bobo e até útil em algumas situações, mas essa cultura do ‘ganhar tempo’ acelerando tudo, está lhe transformando num sujeito absolutamente diferente porque sua subjetividade está sendo configurada para se comportar como máquina! Toda velocidade de áudio que não é 1x é velocidade não humana!
Por consequência, nossa memória e atenção também estão sendo modificadas. É preciso retomar o tempo do humano. E isso não é ser lento nem lerdo… é ser apenas um “demasiado humano’, como já nos ensinou Nietzche. Esta reflexão visa, na essência, que você reveja seus hábitos cotidianos e agregue mais reflexão ao que tem feito de modo meio automatizado diariamente, sem pensar. A lentidão deve ser encarada como um jeito de usufruir e contemplar a vida em favor de mais qualidade de consciência crítica. Formação exige presença e inteireza nos atos ordinários. Que projeto de sociedade emergirá dessa lógica aligeirada de gastar a vida? Pense sobre isso, converse sobre isso… faça com que novas percepções de mundo circulem! Até a próxima!
Prof. Dr. Bruno Olivatto (bolivatto@gmail.com)
Pedagogo e Professor do Programa Avançado de Saúde Coletiva com concentração em Saúde Digital do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia/ISC-UFBA.
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