A IA é só mais uma tecnologia? Talvez esse seja justamente o nosso maior engano
Perdão aos meus leitores fies dessa coluna…. mas eu não consigo deixar de ver o mundo sob a perspectiva pedagógica. Essa é a minha formação inicial, ela ainda me sustenta na forma de pensar a realidade. E, portanto, preciso voltar à questão da IA no tempo presente porque onde vou só se fala disso, seja em âmbitos pessoais ou profissionais. Dito isso, eu confesso que durante algum tempo achei razoável a frase: “A inteligência artificial é apenas mais uma tecnologia”. Afinal, já disseram coisas parecidas sobre o rádio, a televisão, o cinema, a internet e até sobre a escrita. Platão, há mais de dois mil anos, desconfiava que a escrita poderia enfraquecer a memória humana. Sobre a televisão, muita gente anunciou o fim da leitura. A internet, por sua vez, seria a responsável por destruir nossa capacidade de concentração… e por aí vai!
E, no entanto, sobrevivemos a tudo isso. Talvez por isso exista uma tentação confortável de pensar que a inteligência artificial será apenas mais um capítulo dessa velha história de pânico diante das novidades. Mas o certo é que comecei a desconfiar dessa explicação. Não porque acredite que as máquinas irão dominar o mundo. Não acredito em robôs conspirando numa sala escura para assumir o controle da humanidade. O problema é muito mais simples e, por isso mesmo, muito mais sério!
Talvez a IA não esteja apenas mudando o que fazemos. Talvez esteja mudando o que precisamos fazer com a nossa própria cabeça. E é aqui que a conversa começa a ficar interessante. Imagine uma situação banal. Você recebe um e-mail longo e difícil de responder. Antes, talvez precisasse pensar algum tempo, organizar as ideias, escolher as palavras, apagar uma frase, reescrever outra, ou seja, fazer uma espécie de travessia reflexiva para dar conta dessa necessidade. E Agora? Bem, basta copiar o texto, escolher a IA preferida e pedir uma resposta… e, em poucos segundos, recebe três versões: uma formal, outra cordial e uma terceira “mais firme, mas sem parecer agressiva”…kkk.. realmente incrível! Pronto. Problema resolvido. Ou quase! Mass por que “quase”? Porque há uma pergunta escondida nessa facilidade: o que aconteceu com os minutos em que eu precisaria pensar? É uma pergunta pequena para um fenômeno enorme.
Durante muito tempo, usamos a tecnologia para ampliar nossas capacidades. O livro guardava aquilo que não queríamos esquecer. O telefone aproximava quem estava longe. O GPS nos ajudava a encontrar um caminho. A calculadora fazia contas com uma velocidade que o cérebro não alcançaria. A realidade é que a máquina fazia alguma coisa por nós. Agora começa a fazer alguma coisa em nosso lugar. E essa diferença não é apenas semântica!
Quando peço à IA que escreva um texto, resuma um livro, formule um argumento, organize uma ideia, produza um código ou compare possibilidades, não estou apenas usando uma ferramenta para transportar informação. Estou terceirizando etapas do próprio pensamento. Antes delegávamos à máquina a memória. Agora começamos a delegar a ela a elaboração! É uma mudança silenciosa. Tão silenciosa que quase parece natural. E talvez esse seja o maior perigo: aquilo que chegga devagar demais para assustar pode se tornar profundo demais para ser percebido.
Uma criança que utiliza uma calculadora, por exemplo, não deixa necessariamente de aprender matemática. Mas o que acontece quando uma criança passa a utilizar uma máquina para formular uma pergunta antes mesmo de aprender a formular a própria pergunta? Um estudante – ou qualquer de nós adultos – que pede à IA para explicar um assunto pode aprender muito. Otimo! Mas o que acontece quando se deixa de experimentar a dificuldade de não saber, aquela espécie de desconforto intelectual que tantas vezes nos obriga a pensar? Tenho cada vez mais simpatia por uma ideia incômoda porque a dificuldade (fruto da inquietação por não saber imediatamente) também educa!
Nem todo atalho é progresso. Há coisas que só aprendemos porque demoramos para aprendê-las. A questão se torna ainda mais delicada quando percebemos que a inteligência artificial não apenas responde às nossas perguntas. Ela também começa a participar daquilo que vemos, lemos e desejamos ver. As antigas mídias eram, em grande medida, espaços compartilhados. Uma família assistia ao mesmo telejornal. Uma cidade comentava o mesmo acontecimento. Havia, com todos os seus problemas, alguma experiência comum. Agora, cada um pode receber uma realidade cuidadosamente ajustada ao seu perfil. Eu vejo uma coisa. Você vê outra. O algoritmo percebe o que me prende a atenção e oferece mais daquilo. Depois observa minha reação e ajusta novamente… e o ciclo não para!
A máquina não precisa me convencer de nada. Basta aprender o que me faz ficar. É aí que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser social, política, cultural e profundamente humana… e até ontológica! Porque uma sociedade precisa de diferenças, mas também precisa de algum terreno comum para conversar. Se cada pessoa passa a habitar uma espécie de realidade personalizada, construída por sistemas que sabem cada vez mais sobre nossos hábitos, preferências e fragilidades, talvez o problema não seja apenas o excesso de informação. Talvez seja o desaparecimento da experiência compartilhada!
E há ainda outra questão que me parece decisiva: a velocidade. A humanidade levou milhares de anos para passar da cultura oral à escrita. Levou séculos para transformar a escrita em imprensa. Foram necessárias décadas para que rádio e televisão se tornassem fenômenos de massa. A inteligência artificial, porém, chegou ao nosso cotidiano numa velocidade extraordinariamente fenomenal. Mas, atenção, o cérebro humano aprende devagar… tem um tempo próprio.. e isso é saudável e necessário. Contudo, a tecnologia muda depressa demais… e essa diferença importa!
Não temos gerações inteiras para experimentar, corrigir, adaptar e compreender o que está acontecendo. Estamos fazendo isso enquanto a transformação acontece. E talvez por isso seja tão precipitado dizer que “sempre foi assim”. Não. Nunca foi exatamente assim! A fotografia podia ser manipulada. O cinema podia fabricar ilusões. A televisão podia distorcer acontecimentos. Mas havia algum esforço técnico envolvido na fabricação da mentira. Pense nisso. Sóq que agora podemos produzir, em escala industrial, textos, imagens, vozes e vídeos que nunca existiram. Então, a pergunta já não é apenas “isso é mesmo verdadeiro?”. Precisamos passar a perguntar outra coisa: “Como eu sei que isso é verdadeiro?”.
Essa pequena mudança, contudo, pode representar uma enorme fadiga com o passar do tempo. Imagine receber uma notícia extraordinária e, antes de acreditar, precisar investigar a imagem, a voz, o vídeo, a fonte, a data, o contexto e a possibilidade de aquilo ter sido produzido artificialmente. Acho que a certa altura, é bem possível que passemos simplesmente a desistir desse processo todo! E quando verificar tudo se torna cansativo demais, surge um fenômeno perigoso: o cinismo. “Pode ser verdade. Pode ser mentira. Tanto faz.” É aí que uma sociedade perde algo precioso. Porque uma sociedade que não consegue distinguir o verdadeiro do falso não se torna necessariamente mais crítica. Pode simplesmente se tornar indiferente!
Por isso, eu já não me sinto confortável quando ouço que a inteligência artificial é “só mais uma tecnologia”. Ela é, evidentemente, uma tecnologia. Mas talvez seja uma tecnologia de outra natureza. As tecnologias anteriores ampliaram nossos olhos, nossos ouvidos, nossas mãos, nossa memória. A inteligência artificial começa a ampliar – e, em alguns casos, substituir – partes do trabalho que fazemos com a cabeça. Isso não significa, contudo, que estamos condenados. Pelo contrário. Significa que precisamos prestar atenção… muito mais atenção ao que está acontecendo. A questão talvez não seja impedir que as máquinas pensem. Isso parece impossível e talvez nem seja desejável. A questão é outra: que partes do nosso pensamento estamos dispostos a entregar?
Porque toda vez que uma máquina resolve uma dificuldade por nós, ganhamos tempo. Mas talvez também entreguemos alguma coisa. E nem sempre sabemos o que foi. Talvez o grande desafio dos próximos anos não seja ensinar as máquinas a pensar cada vez melhor. Talvez seja ensinar seres humanos a continuar pensando quando as máquinas já puderem fazer isso por nós. No fundo, a pergunta que me interessa não é se a inteligência artificial vai substituir o ser humano. É uma pergunta mais simples e, talvez, mais inquietante: quando uma máquina puder pensar conosco, pensar por nós e até antes de nós, ainda saberemos reconhecer o momento em que uma ideia deixou de ser nossa?
Prof. Dr. Bruno Olivatto (bolivatto@gmail.com)
Pedagogo e Professor do Programa Avançado de Saúde Coletiva com concentração em Saúde Digital do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia/ISC-UFBA.
Atualmente, pós-doutorando em Saúde Coletiva e economia da saúde/ISC-UFBA e integrante da equipe de Coordenação Pedagógica da Política de Educação Integral e de Tempo Integral do Ministério da Educação/MEC, sob liderança local da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia/UFBA.
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