Brasil registra segunda maior saída de dólares da história
O Brasil encerrou 2025 com a segunda maior saída líquida de dólares desde o início da série histórica, em 1982, segundo dados preliminares do Banco Central. O fluxo cambial total ficou negativo em US$ 33,316 bilhões, um volume expressivo que só perde para o registrado em 2019, quando a evasão alcançou US$ 44,768 bilhões. O número chama atenção pela magnitude, mas precisa ser analisado dentro de um contexto econômico mais amplo, que ajuda a explicar por que, mesmo com esse resultado, o real terminou o ano valorizado.
A dinâmica do câmbio em 2025 revelou um contraste importante. De um lado, houve uma forte saída de recursos pelo canal financeiro; de outro, a moeda brasileira ganhou força frente ao dólar. Esse movimento ocorreu porque o país manteve juros elevados ao longo do ano, o que atraiu estratégias financeiras favoráveis ao real, especialmente no mercado de derivativos. Ao mesmo tempo, o dólar perdeu força no cenário internacional, criando um ambiente que sustentou a valorização da moeda brasileira, mesmo diante do fluxo negativo no mercado à vista.
O principal responsável pelo desempenho desfavorável do fluxo cambial foi o canal financeiro. Em 2025, ele acumulou saída líquida de US$ 82,467 bilhões, a segunda maior de toda a série histórica, ficando atrás apenas do resultado observado em 2024. Esse canal reúne operações como investimentos estrangeiros diretos e em carteira, remessas de lucros e dividendos, pagamento de juros, amortizações de empréstimos e outras transações financeiras entre residentes e não residentes. O volume elevado indica que empresas e investidores optaram por remeter recursos ao exterior ou reduzir exposição ao país ao longo do ano.
Já o canal comercial apresentou um desempenho positivo, com entrada líquida de US$ 49,151 bilhões. Ainda assim, esse resultado não foi suficiente para compensar a saída intensa pelo lado financeiro. Além disso, o saldo comercial ficou abaixo do pico histórico registrado em 2007 e também menor do que o observado em 2024. A principal explicação está no avanço das importações, que cresceram de forma significativa ao longo do ano.
Segundo o Banco Central, o volume de câmbio contratado para importações atingiu US$ 238 bilhões em 2025, o segundo maior valor da série histórica, inferior apenas ao recorde de 2022. As exportações, por sua vez, somaram US$ 287,5 bilhões. É importante destacar que o fluxo cambial não se limita às operações já concluídas de exportação e importação, como ocorre na balança comercial tradicional. Ele inclui também pagamentos antecipados e adiantamentos de contratos de câmbio, o que amplia a leitura sobre a movimentação de dólares no país.
Mesmo com a saída expressiva de moeda estrangeira, o real se apreciou ao longo do ano. Além dos juros altos no Brasil, o enfraquecimento global do dólar estimulou investidores a assumir posições favoráveis à moeda brasileira no mercado futuro, compensando parte da pressão negativa do fluxo cambial. A atuação do Banco Central no mercado à vista foi pontual. A autoridade monetária realizou apenas duas intervenções, de US$ 1 bilhão cada, por meio do chamado “casadão”, mecanismo que combina a venda de dólares das reservas internacionais com swaps cambiais reversos. Essa estratégia permite aliviar a taxa de juros em dólar sem provocar impactos diretos no câmbio.
No mês de dezembro, tradicionalmente marcado por remessas ao exterior para pagamento de dividendos, o fluxo cambial ficou negativo em US$ 13,562 bilhões. O valor foi menor do que o registrado em dezembro de 2024, quando a saída chegou a US$ 27 bilhões. Em 2025, as remessas foram intensificadas porque empresas e investidores decidiram se antecipar ao fim da isenção do imposto de renda sobre remessas internacionais, que passou a ser tributada a partir de janeiro de 2026.
O fluxo cambial funciona como uma prévia do balanço de pagamentos, divulgado mensalmente pelo Banco Central. Ele mede as relações monetárias e financeiras entre residentes e não residentes, dividindo-se em fluxo comercial e fluxo financeiro. Os dados de 2025 deixam claro que a principal origem da saída de dólares esteve no canal financeiro, revelando escolhas estratégicas de empresas e investidores diante do cenário econômico global e doméstico.
Fonte: Agência Brasil







