Brumadinho completa sete anos e famílias cobram justiça real
Sentadas no chão da Avenida Paulista, em São Paulo, crianças amassam argila com as próprias mãos e moldam pequenos vasinhos. Elas colocam sementes e mudinhas nesses recipientes, com a expectativa de ver a vida nascer e crescer nos próximos dias. O gesto simples carrega um peso enorme: ele relembra os sete anos do rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho (MG), tragédia que matou 272 pessoas e marcou o Brasil como uma ferida aberta.
O Instituto Camila e Luiz Taliberti organizou o ato. A entidade nasceu para homenagear Camila e Luiz, filhos de Helena Taliberti, que morreram quando a lama engoliu a Pousada Nova Estância, local onde estavam hospedados. Helena também perdeu a nora, Fernanda Damian, que estava grávida de cinco meses do primeiro filho. Na mesma viagem, ela viu o ex-marido, pai de Camila e Luiz, morrer junto com a então esposa. A tragédia arrancou uma família inteira de uma só vez, deixando apenas o silêncio e a ausência como resposta.
Helena falou com emoção e com firmeza. Ela olhou para as crianças e lembrou que elas representam o futuro, mesmo quando a dor tenta impedir qualquer esperança. “As crianças são o nosso futuro”, disse, com lágrimas nos olhos, ao explicar que não terá mais netos. Ainda assim, ela reforçou que precisa proteger as próximas gerações e ensinar que o meio ambiente não vive apenas longe, na Amazônia ou no Pantanal. Ela afirmou que o meio ambiente começa dentro das cidades, nas ruas, nos parques, nas margens dos rios e nas escolhas diárias de cada pessoa.
A ativista chamou atenção para a Mata Atlântica e para o que resta dela na capital paulista. Ela lembrou que São Paulo se formou sobre esse bioma, mas preserva apenas uma pequena parte do que existia originalmente. Por isso, ela defendeu a criação de espaços verdes dentro dos centros urbanos, como áreas de respiro, capazes de melhorar a qualidade do ar e a vida de quem mora em grandes cidades. Ela também destacou que as novas gerações precisam aprender, desde cedo, a respeitar a natureza para evitar que o planeta se torne inviável para viver.
A mobilização não ficou apenas na oficina com argila. Ao meio-dia e 28 minutos, uma sirene tocou na Avenida Paulista para marcar o horário exato em que a tragédia começou. O som forte e simbólico lembrou um detalhe cruel: no dia 25 de janeiro, há sete anos, a sirene de alerta não tocou em Brumadinho para avisar as pessoas sobre o rompimento. O silêncio, naquele momento, também matou.
Helena apontou falhas graves que, segundo as investigações, indicaram que a empresa já conhecia problemas na barragem e precisava agir com manutenção e segurança. Ela reforçou que a tragédia poderia ter sido evitada e que a sirene teria salvado vidas se tivesse funcionado. Ao falar disso, ela transformou dor em denúncia e exigiu responsabilidade, porque ninguém deveria morrer por descaso, negligência ou decisões corporativas que colocam lucro acima da vida.
Ela também lembrou que Brumadinho não aconteceu do nada. Antes, Mariana já tinha vivido um desastre devastador. Helena afirmou que Mariana deveria ter funcionado como uma sirene para o país inteiro, um alerta definitivo para impedir novas tragédias. Mas, segundo ela, o Brasil não ouviu. A história se repetiu, com ainda mais mortes, e deixou a sensação de que o país aceitou o risco como parte do sistema.
Sete anos depois, a falta de justiça revolta as famílias. Helena afirmou que ninguém sofreu responsabilização criminal até agora. Um processo segue na Justiça de Minas Gerais e deve julgar 15 pessoas pelo episódio, mas o tempo passa e a sensação de impunidade permanece. Ela disse com clareza: “A Justiça não foi feita”. Para ela, a reparação caminha devagar, não atende de forma adequada e não devolve às pessoas o que elas perderam.
Muitas famílias perderam casas, lavouras, animais e formas de sustento. Elas perderam também a segurança de viver onde nasceram. Helena destacou que o termo “reparação” soa duvidoso, porque ninguém repara a morte de alguém. Mesmo assim, ela defendeu que o Estado e as empresas precisam garantir apoio real aos atingidos e reconhecer o tamanho do dano causado. Ela insistiu que a justiça precisa responsabilizar quem tomou decisões e permitiu que tudo acontecesse.
Helena finalizou com um alerta direto: a impunidade abre caminho para novas tragédias. Quando o país não pune, ele autoriza a repetição. E ela afirmou que a sociedade não pode aceitar isso novamente, porque cada vida perdida exige memória, ação e justiça.
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