Campanha da Fraternidade 2026 destaca direito à moradia digna
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou, na Quarta-feira de Cinzas, em Brasília, a Campanha da Fraternidade 2026, que traz como tema Fraternidade e Moradia e o lema Ele veio morar entre nós, inspirado no Evangelho de João. A iniciativa propõe reflexão nacional sobre o direito à moradia digna e destaca que a habitação adequada é base para o exercício da cidadania. Segundo a CNBB, a campanha nasceu de sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas e busca mobilizar comunidades, igrejas e gestores públicos para enfrentar a exclusão habitacional que atinge milhões de brasileiras e brasileiros em diferentes regiões do país.
Na cerimônia de lançamento, o secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoerpers, afirmou que possuir uma casa segura não pode ser tratado como privilégio. Para ele, é inaceitável naturalizar pessoas sem teto, crianças vivendo em áreas de risco ou famílias privadas de condições básicas. O religioso ressaltou que a moradia constitui condição essencial para acessar saúde, educação, segurança e dignidade, devendo ser compreendida como direito fundamental. A mensagem reforça que combater a desigualdade habitacional exige compromisso contínuo da sociedade e políticas públicas consistentes, capazes de garantir proteção social e oportunidades reais para quem vive em situação de vulnerabilidade.
O secretário-executivo das Campanhas da CNBB, padre Jean Poul Hansen, apresentou a mensagem do Papa Leão XIV, lembrando que a Sagrada Família também enfrentou a falta de abrigo em Belém e que Jesus nasceu em uma manjedoura. A referência, segundo ele, aproxima a fé cristã da realidade das pessoas que não dispõem de moradia adequada. O sacerdote convidou fiéis, organizações sociais e autoridades a manter o debate sobre habitação durante todo o ano, defendendo que a promoção do direito de morar com dignidade seja atitude permanente e expressão concreta de solidariedade com os mais pobres.
Durante o evento, foi destacada a experiência da comunidade católica de Trindade, em Salvador, que desenvolve ações para oferecer moradia e acompanhamento a pessoas em situação de rua. O irmão Henrique Peregrino explicou que o trabalho busca mais do que fornecer teto, propondo reconstrução de vínculos, cuidado com a saúde, orientação para gestão de recursos e incentivo à geração de renda. A iniciativa procura ajudar cada participante a recuperar autonomia, fortalecer laços familiares e redescobrir o sentido de pertencimento, mostrando que a moradia digna envolve acolhimento, acompanhamento e integração social.
A campanha também chama atenção para os dados do déficit habitacional brasileiro. Informações citadas indicam que cerca de 328 mil pessoas viviam em situação de rua em 2022, revelando a dimensão do desafio social. Representantes da CNBB defenderam que o Estado cumpra seu papel na formulação e execução de políticas públicas habitacionais, lembrando que a ação política pode ser instrumento de promoção do bem comum. Eles reforçaram que enfrentar a crise exige iniciativas nos níveis municipal, estadual e federal, com planejamento, orçamento adequado e participação ativa da sociedade civil.
Dados do Ministério das Cidades apontam que, entre 2022 e 2023, houve redução de 3,8 por cento no número de famílias sem imóvel próprio, fazendo o déficit cair de 6,21 milhões para 5,97 milhões de domicílios. O governo federal informa ainda que o programa Minha Casa, Minha Vida contratou mais de 1,9 milhão de unidades habitacionais desde 2023, com investimento público superior a 300 bilhões de reais. A meta oficial é alcançar três milhões de moradias contratadas até o final de 2026, ampliando o alcance social da política habitacional.
Após o lançamento nacional, a programação segue no Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo. No sábado, está prevista a bênção da escultura Cristo Sem Teto, do artista canadense Timothy Schmalz, obra que retrata Jesus identificado com pessoas em situação de rua e convida à solidariedade. A celebração contará com a presença de lideranças da CNBB e da Igreja local. No domingo, será celebrada a missa de abertura da campanha, presidida pelo cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB, marcando o início das mobilizações pastorais em todo o Brasil.
Com a Campanha da Fraternidade, a Igreja busca estimular reflexão, oração e ações concretas nas comunidades, incentivando parcerias, debates públicos e iniciativas solidárias que contribuam para reduzir a exclusão habitacional e fortalecer a dignidade humana em todo o país, promovendo compromisso social contínuo entre fiéis, autoridades e cidadãos engajados na transformação.
Fonte: Agência Brasil







