Festa de Iemanjá no Rio Vermelho une fé cultura e mar baiano
Celebrada todos os anos em 2 de fevereiro, na praia do Rio Vermelho, em Salvador, a Festa de Iemanjá se consolidou como a maior homenagem do Brasil à Rainha do Mar. A celebração reúne espiritualidade, história, cultura popular e convivência coletiva, transformando o bairro em um grande espaço de encontro, respeito e devoção. Pessoas de diferentes crenças, idades e origens ocupam a praia desde a madrugada para agradecer, pedir proteção e celebrar a força simbólica das águas.
A origem da festa está ligada ao sincretismo religioso e às transformações culturais da cidade. Pesquisadores apontam que a data dialoga com a celebração católica de Nossa Senhora das Candeias, associada a Oxum, orixá das águas doces. Antes do amanhecer do dia 2, oferendas a Oxum ainda são feitas no Dique do Tororó, mantendo viva uma tradição que antecede a ida definitiva do culto de Iemanjá para o mar, ocorrida em 1924. Esse deslocamento marcou uma mudança profunda na forma de celebração, aproximando o ritual da vida cotidiana dos pescadores.
Historicamente, a festa também dialoga com o antigo culto a Sant’Ana, que teve início em 1823 e era organizado com grande autonomia pelos jangadeiros da região. Com o passar do tempo, conflitos religiosos, mudanças na orientação do clero e a chegada de novos moradores alteraram o formato original da celebração. A criação da Paróquia de Sant’Ana, em 1913, reduziu a liberdade dos pescadores na condução dos festejos, provocando tensões que contribuíram para a gradual perda de força do culto católico local.
Um episódio marcante ocorreu em 1930, quando a recusa de um padre em celebrar a missa e um sermão considerado ofensivo pelos pescadores romperam definitivamente o vínculo com a igreja naquele contexto. A partir desse momento, a devoção à Rainha do Mar ganhou centralidade e identidade própria. O nome Festa de Iemanjá passou a ser utilizado oficialmente apenas em 1960, consolidando uma manifestação que já pulsava há décadas na vida da comunidade.
A Casa do Peso ocupa papel simbólico fundamental na celebração. Localizada próxima à antiga igreja, o espaço guarda instrumentos de trabalho dos pescadores e abriga um ambiente dedicado ao culto de Iemanjá. Imagens, flores, água, pedras e búzios compõem o cenário onde fiéis acendem velas e fazem seus pedidos. Em frente à casa, a escultura de Iemanjá, criada por Manoel Bonfim em 1970, tornou-se um dos ícones visuais da festa.
Atualmente, as homenagens começam ainda de madrugada. Devotos do candomblé, da umbanda, do catolicismo e pessoas sem vínculo religioso participam juntas do ritual. Flores, perfumes, cartas e gestos de carinho são colocados em balaios que seguem para o alto-mar em cerca de trezentas embarcações. O saveiro dos pescadores lidera o cortejo, reforçando a ligação da festa com o trabalho, a sobrevivência e a fé de quem vive do mar.
O ponto alto acontece no fim da tarde, com a saída do presente principal de Iemanjá, confeccionado pela Colônia de Pescadores Z-1. A oferenda segue em procissão marítima até o Buraco de Iaiá, a três milhas da costa. Em 2025, a ornamentação ficou sob responsabilidade do Terreiro Olufanjá, reafirmando o protagonismo das comunidades de matriz africana.
Nos anos 2000, a festa incorporou a pauta ambiental com a criação do movimento Balaio Verde. A iniciativa incentiva o uso de presentes biodegradáveis e conscientiza sobre o cuidado com o mar. A mensagem é simples e poderosa: quem ama a Rainha do Mar cuida da sua casa.
Reconhecendo sua importância, a Festa de Iemanjá foi tombada em 2020 como Patrimônio Cultural de Salvador. O registro garante proteção, visibilidade e um plano de salvaguarda para essa tradição iniciada nos anos 1920. Mais do que um evento religioso, a festa afirma identidade, diversidade e pertencimento, mantendo viva uma das expressões culturais mais fortes da Bahia.







