Fim da escala 6×1 ganha força e avança no Congresso
O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro da agenda política neste início de ano. Propostas que defendem a diminuição da carga semanal para 40 horas e o fim da escala 6×1 modelo em que se trabalha seis dias para ter apenas um de descanso passaram a ser tratadas como prioridade no Congresso Nacional. O tema ganha força em meio a mudanças no mundo do trabalho, ao aumento das discussões sobre saúde mental e à busca por maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Na mensagem enviada ao Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu a revisão da jornada de trabalho entre as prioridades do governo para o semestre. No mesmo dia, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, afirmou que o debate deve avançar na Casa. Esse alinhamento entre Executivo e Legislativo sinaliza um cenário mais favorável para mudanças estruturais nas regras trabalhistas.
Um dos principais defensores da proposta é o senador Paulo Paim, autor de uma das iniciativas mais antigas sobre o tema. Para ele, o momento político, somado à pressão social e à experiência internacional, cria uma oportunidade real de aprovação. O senador destaca que a discussão deixou de ser apenas ideológica e passou a dialogar com a realidade de diversos setores econômicos, que já buscam alternativas à escala tradicional.
Atualmente, tramitam no Congresso sete proposições relacionadas à redução da jornada. Na Câmara, uma subcomissão aprovou, em 2025, a redução gradual de 44 para 40 horas semanais, mas manteve a escala 6×1. No Senado, a Comissão de Constituição e Justiça foi além ao aprovar a PEC 148/2015, que prevê o fim da escala 6×1 e a redução progressiva da jornada para 36 horas semanais. A proposta está pronta para ser votada em plenário.
O tema reúne parlamentares de diferentes espectros políticos, o que amplia as chances de avanço. Entre os autores de projetos semelhantes estão senadores e deputadas e deputados de partidos diversos, indicando que a pauta ultrapassa divisões ideológicas e dialoga com demandas sociais amplas. Segundo Paim, uma jornada máxima de 40 horas pode beneficiar cerca de 22 milhões de pessoas, enquanto a redução para 36 horas alcançaria aproximadamente 38 milhões.
A discussão também tem forte recorte de gênero. Dados citados pelo senador mostram que mulheres acumulam longas jornadas diárias ao conciliar trabalho remunerado e tarefas domésticas. A redução da carga horária semanal tende a aliviar essa sobrecarga e promover maior equidade. Além disso, o impacto positivo na saúde é frequentemente apontado como um dos principais benefícios.
Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social registrou centenas de milhares de afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho. Especialistas indicam que jornadas excessivas contribuem para o aumento de casos de estresse, ansiedade e síndrome do esgotamento. Reduzir horas trabalhadas, nesse contexto, significa investir em prevenção e qualidade de vida.
No âmbito do governo, a ministra Gleisi Hoffmann articulou reuniões para buscar uma estratégia comum entre as propostas existentes. Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, confirmou que o Executivo pretende enviar um projeto de lei com urgência constitucional para tratar do fim da escala 6×1, reforçando o compromisso com o tema.
Apesar do cenário favorável, há resistência de parte do setor empresarial. Argumentos sobre aumento de custos e risco de desemprego voltam ao debate, mas defensores da mudança afirmam que esses discursos já se repetiram em outras conquistas trabalhistas e não se confirmaram. A experiência mostra que jornadas mais equilibradas podem aumentar a produtividade, fortalecer o consumo e dinamizar a economia.
O cenário internacional reforça essa visão. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, a média de horas trabalhadas no Brasil supera a de muitos países desenvolvidos. Na Europa, a jornada média gira em torno de 36 horas semanais, com exemplos de alta produtividade em países como a Alemanha, onde se trabalha menos horas.
Países da América Latina também avançam nesse debate. Chile, Equador e México aprovaram legislações recentes para reduzir suas jornadas semanais. Esses movimentos indicam uma tendência global de adaptação das relações de trabalho às novas realidades econômicas e sociais.
Outro dado relevante é que pessoas com menor escolaridade costumam trabalhar mais horas do que aquelas com ensino superior. Assim, a redução da jornada beneficia especialmente trabalhadores e trabalhadoras em situações mais vulneráveis, contribuindo para reduzir desigualdades históricas.
Diante desse conjunto de fatores, cresce a percepção de que não há mais justificativa para manter a escala 6×1 e a jornada de 44 horas semanais. O debate segue no Congresso, mas a pauta já se consolida como um dos principais temas trabalhistas do ano, com potencial de gerar impactos positivos duradouros para milhões de pessoas.
Fonte: Agência Brasil







