Hyundai leva caminhões a hidrogênio ao Uruguai
A Hyundai iniciou a operação da primeira frota de caminhões pesados movidos a hidrogênio da América do Sul, marcando um avanço importante na transição energética do transporte na região. O projeto acontece no Uruguai e envolve oito unidades do modelo XCIENT Fuel Cell, destinadas à logística de madeira, dentro de uma proposta que vai além da simples adoção de veículos, ao integrar também produção local de hidrogênio verde e infraestrutura dedicada de abastecimento.
A iniciativa chama atenção por adotar um modelo que já vem sendo utilizado em outras partes do mundo, especialmente na Ásia e na Europa, baseado em um ecossistema fechado. Nesse formato, geração de energia, distribuição e consumo estão conectados desde o início, garantindo maior eficiência operacional e previsibilidade no uso da tecnologia.
Os caminhões fazem parte do Projeto Kahirós, liderado por um consórcio local que reúne empresas de energia, logística e a distribuidora da Hyundai no país. Entre os principais pilares está a construção de uma planta de eletrólise responsável pela produção de hidrogênio verde, alimentada por um parque solar com capacidade de 4,8 MW. A produção estimada chega a 77 toneladas de hidrogênio por ano.
O investimento total gira em torno de 40 milhões de dólares, com financiamento do Grupo Santander e apoio de instituições como a IFC, ligada ao Banco Mundial, além de um fundo da ONU. A proposta prevê operação contínua ao longo da próxima década, consolidando um modelo sustentável e integrado para o transporte de cargas.
Na prática, o projeto segue um conceito verticalizado, no qual o hidrogênio é produzido no mesmo ambiente onde será consumido. Essa estratégia reduz custos logísticos e elimina um dos principais desafios da tecnologia, que é a distribuição do combustível. Além disso, seis caminhões devem operar diretamente na logística, acumulando cerca de um milhão de quilômetros rodados por ano, enquanto duas unidades ficam reservadas para suporte e expansão futura.
A escolha da logística de madeira não ocorreu por acaso. Trata-se de uma operação com rotas bem definidas, alto volume de transporte e baixa variabilidade, fatores que facilitam o planejamento da infraestrutura e o controle de custos. Esse tipo de aplicação reforça que, no estágio atual, o uso do hidrogênio no transporte pesado ainda depende de cenários específicos e altamente organizados.
Diferentemente dos caminhões elétricos movidos a bateria, que já começam a ganhar espaço em modelos mais abertos, as soluções com célula de combustível ainda exigem projetos estruturados e com demanda previsível. Isso não significa que a tecnologia esteja distante da realidade, mas indica que sua expansão ainda ocorre de forma gradual.
O modelo utilizado é o Hyundai XCIENT Fuel Cell, já testado em mercados como Europa e América do Norte. O veículo combina duas pilhas de célula de combustível que geram potência equivalente a 245 cavalos, alimentando um motor elétrico de 469 cavalos e torque de 2.237 Nm, adequado para operações de carga pesada.
O sistema de armazenamento conta com dez tanques, com capacidade total de 68 quilos de hidrogênio, além de uma bateria auxiliar de 72 kWh. Em condições ideais, a autonomia pode alcançar até 720 quilômetros, com a vantagem de um tempo de reabastecimento significativamente menor quando comparado aos veículos elétricos a bateria.
Globalmente, a Hyundai já acumula resultados relevantes com essa tecnologia. Na Europa, a frota ultrapassa 20 milhões de quilômetros rodados desde 2020, enquanto na América do Norte já soma mais de 1,6 milhão de quilômetros desde 2023. Esses números demonstram que o sistema é tecnicamente viável e operacionalmente confiável.
Apesar disso, a expansão em larga escala ainda enfrenta desafios importantes, principalmente relacionados ao custo do hidrogênio e à necessidade de infraestrutura dedicada. O projeto no Uruguai reforça que a tecnologia funciona quando há integração completa entre produção, abastecimento e uso, mas também evidencia que a consolidação de um mercado amplo ainda depende de avanços estruturais.







