Julho das Pretas: acessibilidade também é justiça social
Julho é um mês de memória, resistência e protagonismo. Em todo o Brasil, o *Julho das Pretas* promove reflexões sobre a luta das mulheres negras por direitos, equidade e reconhecimento. O ponto alto da mobilização acontece em *25 de julho, quando é celebrado o **Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana e Caribenha, além do **Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra*.
A data também convida a sociedade a reconhecer mulheres negras que vêm transformando realidades por meio do empreendedorismo, da inovação e do impacto social. Na Bahia, uma dessas histórias é a da empreendedora *Paula Nepomuceno, fundadora e CEO da **Nepomuceno Libras*, empresa especializada em soluções de acessibilidade comunicacional.
Criada com o propósito de romper barreiras na comunicação, a empresa atua com interpretação e tradução em Libras, consultorias e estratégias de inclusão para empresas, órgãos públicos, instituições de ensino e eventos. O trabalho, iniciado na Bahia, já alcança outros estados brasileiros, promovendo o acesso à informação e reafirmando que comunicar também é garantir direitos.
O reconhecimento desse impacto veio recentemente com a seleção da Nepomuceno Libras entre as *1.000 startups de maior destaque do programa Sebrae Startups, sendo uma das **27 empresas baianas escolhidas* para integrar a iniciativa. A conquista demonstra que negócios de impacto social também podem inovar, crescer e gerar transformações concretas na vida das pessoas.
Para Paula Nepomuceno, o reconhecimento vai além do empreendedorismo.
“Ser uma mulher negra, que veio da comunidade, alcançar espaços de visibilidade nacional é um privilégio. Mas a maior conquista é abrir caminhos para que outras pessoas também sejam vistas. Promover acessibilidade é garantir que a comunidade surda — especialmente as mulheres surdas negras, que ainda enfrentam múltiplas invisibilidades — tenha acesso aos seus direitos, à informação e aos espaços que historicamente lhes foram negados.”
Embora o Brasil tenha avançado com a *Lei nº 10.436/2002, que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio legal de comunicação e expressão, e com a **Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015)*, que assegura o direito à acessibilidade, a realidade ainda está distante do que essas legislações garantem.
Para milhares de pessoas surdas, o acesso a serviços essenciais continua sendo um desafio. Hospitais, maternidades, delegacias, rodoviárias, órgãos públicos, instituições de ensino, centros culturais, shoppings e diversos outros espaços ainda carecem de recursos que assegurem uma comunicação efetiva. Sem acessibilidade, direitos fundamentais como saúde, segurança, educação e justiça tornam-se limitados.
Garantir intérpretes de Libras e promover uma comunicação acessível não deve ser visto apenas como cumprimento da legislação. É assegurar cidadania, autonomia e dignidade.
Para as empresas, esse compromisso também representa uma decisão estratégica. Organizações que investem em inclusão fortalecem sua reputação, ampliam o relacionamento com clientes, alcançam novos públicos e geram valor para a marca. Em um mercado cada vez mais atento às práticas de responsabilidade social e ESG, acessibilidade deixou de ser diferencial para se tornar um indicador de compromisso com as pessoas.
Neste *Julho das Pretas*, refletir sobre inclusão também significa reconhecer que a luta por igualdade precisa considerar todas as vozes, especialmente aquelas que ainda enfrentam múltiplas barreiras para serem ouvidas.
Porque uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela em que algumas pessoas conseguem chegar. É aquela em que todos têm o direito de participar, comunicar-se e pertencer.
* Paula Nepomuceno é graduada em Letras-Libras, especialista em Libras e fundadora e CEO da Nepomuceno Libras, empresa baiana especializada em soluções de acessibilidade comunicacional.







