Juros altos elevam temor de crise de crédito e recessão em 2027
O mercado financeiro acompanha com crescente cautela os efeitos prolongados dos juros elevados sobre empresas, famílias e atividade econômica. A combinação entre endividamento alto, avanço da inadimplência e aumento dos pedidos de recuperação judicial reforça o temor de uma crise de crédito e mantém aberta a possibilidade de recessão em 2027, embora esse não seja o cenário principal das instituições ouvidas.
O caso da Casas Bahia, que protocolou pedido de recuperação judicial com cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, ampliou a atenção para o ambiente financeiro. Mesmo após quatro cortes que reduziram a Selic de 15% para 14% desde março, a política monetária continua restritiva. Economistas avaliam que a falta de um ajuste fiscal consistente limita a capacidade do Banco Central de acelerar a queda dos juros.
Para Adauto Lima, economista para o Brasil da Franklin Templeton, o impacto da política monetária demorou a aparecer, mas agora alcança uma economia altamente alavancada. Empresas, famílias e governo carregam níveis elevados de dívida, enquanto o crédito tende a ficar mais seletivo. Lima calcula uma probabilidade próxima de 20% de recessão em 2027, embora trabalhe com crescimento de 1,5% do Produto Interno Bruto no cenário mais provável.
Nos últimos anos, a expansão do mercado de capitais ajudou a adiar parte dos efeitos dos juros. Empresas recorreram a debêntures, fundos e outros instrumentos de financiamento, enquanto famílias tiveram acesso ampliado a cartões, modalidades de consignado e Fundos de Investimento em Direitos Creditórios. Agora, esse fluxo mostra sinais de perda de força. Até julho, a emissão de debêntures caiu 28,7%, a captação por CRIs recuou 23,5% e a de CRAs diminuiu 57,5%.
A preocupação também aumenta com o crescimento das recuperações judiciais e dos atrasos de famílias. Relatório do Citi aponta que transferências sociais e programas oficiais de apoio ainda não foram suficientes para reduzir a inadimplência. A expectativa apresentada pelo banco é de continuidade da piora nos pagamentos.
Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, considera que uma recessão não pode ser descartada, mas avalia que o risco permanece limitado. A XP projeta crescimento de 2% do PIB neste ano e de 1% em 2027. A instituição estima Selic de 14% no fim de 2026 e de 11,5% no encerramento de 2027.
Na avaliação de economistas, o desempenho futuro dependerá também da política fiscal. Um choque de confiança provocado pela ausência de medidas para reorganizar as contas públicas poderia elevar o prêmio de risco, pressionar o dólar e alimentar a inflação, reduzindo investimentos e consumo. Nesse ambiente, surgiria o risco de estagflação, com atividade fraca e preços elevados.
Bruno Perri, da Forum Investimentos, vê 2027 como um ano potencialmente difícil, principalmente pela redução do impulso dos gastos públicos e pelo elevado endividamento. Já Matheus Jaconeli, da ZIIN, avalia que as projeções apontam mais para desaceleração do que para recessão. Para ele, uma agenda fiscal consistente poderia melhorar as expectativas e ampliar a confiança dos investidores.
Nesse contexto, empresas precisam preservar caixa, administrar dívidas e acompanhar de perto o custo de financiamentos disponíveis.
No varejo, empresas e investidores já discutem um segundo semestre mais desafiador, com sinais de desaceleração do consumo. A leitura predominante é de que a economia chega a 2027 com menos impulso, crédito mais restrito e necessidade de decisões fiscais capazes de reduzir incertezas sem provocar uma queda mais profunda da atividade.







