Lá se foi o jornal impresso… e como fica o ato de ler no digital?
Recentemente, uma frase em uma banca de revistas resiliente me despertou o pensamento: “vende-se jornal velho para pet”. O anúncio, certamente já antigo, revelava o destino escatológico do papel. Mas, para além da imagem em texto, a questão provocadora que me acionou imediatamente foi: o “desaparecimento” do jornal impresso – hoje uma mídia diminuta frente ao digital – trata-se apenas da mudança nos suportes do ato de ler ou há uma mutação mais profunda e essencial, digna de reflexão mais apurada?
É preciso dizer claramente: não se trata apenas de trocar o papel pela tela. A migração para o digital impõe uma radical reorganização do pensamento. Esse “novo” leitor é um interagente que se modifica na relação homem-máquina. Não somos mais apenas decodificadores de textos alfabéticos; somos, como propunha Paulo Freire, leitores de mundo, mas agora numa condição mais ampliada e sob uma lógica rizomática e fragmentada. É assim que estamos tendo que nos reformatar como humanos leitores!
A estrutura de hiperlinks e o fluxo infinito de feeds de mensagens, por exemplo, reinventam nossa cognição. A atenção, antes linear, agora é dispersa, afetando a memória – recurso estruturante do ser para estar no mundo. Ler com qualidade exige acompanhar linhas de argumentação, tolerar ambiguidades e exercer a perspicácia e ser hábil na transição e deslocamento de plataformas e linguagens. E esse “novo” ecossistema digital nos impõe uma velocidade sobre-humana, oposta ao “tempo lento” necessário à profundidade.
O leitor contemporâneo enfrenta um esforço cognitivo maior ao processar multimídias (letras, sons e audiovisualidades), e está mais vulnerável ao embotamento/viéses/manipulação provocados pelos algoritmos. Nesse cenário, o poder do leitor – entre outros – reside na curadoria: é humanamente impossível absorver tudo. Ser um bom leitor hoje exige a clareza e foco para se desviar dos excessos e a coragem de se deixar desestabilizar pelos conteúdos, acessando diversificadas fontes.
A leitura é processo de formação! O sujeito só se constitui quando “atravessa” o texto, deixando-se afetar por ele. Para isso, é preciso resistir ao “pisca-pisca” das distrações digitais. Talvez nossa compreensão agora seja mais global do que sequencial, mas ela ainda requer pausa e densidade reflexiva. A contemplação, embora pareça contraproducente na lógica mercantil, é uma virtude indispensável na contemporaneidade leitora.
O que nos transforma não é o volume de mensagens, mas a capacidade de viver a experiência de pensar sobre o lido. O desafio é permitir-se ser “reeditado” existencialmente. Se ainda não o fez, experimente resgatar a pedagogia clássica: priorize a produção de sentido no ato de ler, ao invés de priorizar e se iludir com a quantidade de manchetes acessadas. Ler, em qualquer tempo, é “somar-se ao mundo”. E, no digital, o “menos” qualificado é, definitivamente, o “mais”.
Pense sobre isso, converse sobre isso e faça o conhecimento circular.
Até a próxima coluna!
Prof. Dr. Bruno Olivatto (bolivatto@gmail.com)
Pedagogo e Professor do Programa Avançado de Saúde Coletiva com concentração em Saúde Digital do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia/ISC-UFBA.
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