Mãe Carmem: um legado de fé no Terreiro do Gantois
Salvador se despediu, com profundo respeito, de Mãe Carmem, ialorixá do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, o tradicional Terreiro do Gantois. Aos 98 anos, ela encerrou uma trajetória marcada por devoção, acolhimento e compromisso com a preservação da religiosidade de matriz africana. Internada há cerca de duas semanas por causa de uma forte gripe, ela completaria 99 anos no dia 29. Sua passagem inspira lembranças de uma liderança serena, firme e profundamente humana.
Filha caçula de Mãe Menininha do Gantois, uma das mais reconhecidas lideranças do candomblé no Brasil, Mãe Carmem cresceu cercada pela espiritualidade e pelo cuidado coletivo. Iniciada aos 7 anos de idade, ela trazia em sua caminhada a força da ancestralidade e o compromisso com a continuidade de uma tradição que valoriza respeito, diversidade e dignidade. Em 2002, assumiu a condução do Terreiro do Gantois, tornando-se a quinta ialorixá à frente da casa fundada em 1849.
Ao longo de mais de duas décadas de liderança, ela fortaleceu o terreiro como um espaço de fé, cultura e pertencimento. Mãe Carmem defendia que espiritualidade se constrói com inclusão, diálogo e afeto. Além da atuação religiosa, promoveu iniciativas socioeducativas para a comunidade, desenvolvendo projetos que ampliaram oportunidades e estimularam o cuidado com a memória cultural. Entre as ações, destacaram-se cursos de música, dança, bordado tradicional e atividades que valorizavam saberes ancestrais e a convivência comunitária.
Seu trabalho ganhou reconhecimento público. Em 2010, ela recebeu da Unesco a “Medalha dos 5 Continentes”, honraria dedicada à diversidade cultural e ao diálogo entre povos. Em 2023, foi agraciada com a comenda Maria Quitéria, homenagem destinada a mulheres que contribuem de forma especial para Salvador e para a Bahia. Esses gestos simbolizam, mas não esgotam, a grandeza de sua atuação cotidiana, feita de cuidado, escuta e orientação.
A cultura também fez reverência à sua trajetória. A canção “A Força do Gantois”, do sambista Nelson Rufino, celebra a presença espiritual e cultural de Mãe Carmem e do terreiro na história do povo brasileiro. Sua voz tranquila e seu exemplo seguirão inspirando gerações que reconhecem no Gantois um patrimônio vivo da ancestralidade africana no país.
Mãe Carmem deixa um legado que atravessa fronteiras religiosas. Sua vida mostra que fé, identidade e cultura caminham juntas quando respeitamos a história e a diversidade das pessoas. Ao longo de seus 98 anos, ela ajudou a manter acesa a chama de um dos terreiros mais antigos e importantes do Brasil, reafirmando a importância do candomblé como expressão de resistência, espiritualidade e humanidade.
A despedida de Mãe Carmem se transforma também em celebração de sua obra. Sua memória segue presente nas práticas, nos cantos, nas oferendas, nas orações e, sobretudo, na vida de quem foi tocado por sua serenidade. O Terreiro do Gantois continua, firme e vivo, sustentado pela ancestralidade que ela honrou com tanto respeito e amor.
Fonte: Portal G1 Bahia






