O que é ser mulher na atualidade: entre conquistas e novos desafios
Por: Fernanda Maria Costa Cerqueira – Advogada
Falar sobre o que é ser mulher na contemporaneidade exige reconhecer que essa experiência é múltipla, diversa e atravessada por profundas transformações sociais. Ao longo das últimas décadas, mulheres conquistaram espaços que antes lhes eram negados e ampliaram sua presença em áreas como política, ciência, economia, cultura e gestão pública. Mas, ao mesmo tempo, essa reflexão revela que muitas amarras históricas à participação feminina ainda permanecem presentes na sociedade.
Às vésperas de 8 de março o Dia Internacional da Mulher a reflexão que se impõe vai além de uma celebração simbólica. Trata-se também de um momento de análise crítica sobre os caminhos já percorridos e, principalmente, sobre os desafios que ainda persistem. Afinal, o que significa ser mulher hoje em um mundo que apresenta importantes avanços sociais, mas que ainda guarda profundas desigualdades estruturais?
A filósofa francesa Simone de Beauvoir escreveu em sua obra O Segundo Sexo que “não se nasce mulher: torna-se”. A frase permanece atual porque evidencia que o feminino não é apenas uma condição biológica, mas também uma construção social moldada por valores culturais, normas e relações de poder. Ao longo da história, mulheres têm reivindicado o direito de construir suas próprias trajetórias, de decidir sobre suas vidas e de ocupar plenamente os espaços públicos e privados.
Essas conquistas são visíveis em diversas áreas. Hoje, mulheres lideram empresas, ocupam cargos de gestão, atuam como pesquisadoras, artistas, professoras, empreendedoras e gestoras públicas. Sua presença transforma instituições e amplia o olhar sobre temas essenciais como educação, saúde, desenvolvimento social e políticas de cuidado.
No entanto, ser mulher na atualidade também significa enfrentar novos desafios. A ampliação da presença feminina em espaços antes predominantemente masculinos não eliminou tensões históricas relacionadas à divisão do trabalho, à sobrecarga do cuidado familiar, à desigualdade salarial e à busca constante por reconhecimento profissional e social.
Além disso, a violência contra as mulheres permanece como uma das mais graves expressões dessa desigualdade. O Brasil ainda convive com índices preocupantes de agressões, abusos e feminicídios, revelando que a luta pela proteção da vida das mulheres continua sendo uma prioridade social e política.
A filósofa Judith Butler destaca que as identidades de gênero são continuamente produzidas e negociadas no espaço social. Isso significa que a experiência feminina não é estática, mas construída a partir de múltiplas realidades, contextos culturais e relações de poder. Nesse cenário, a mulher contemporânea vive entre avanços importantes e disputas permanentes por igualdade material, respeito e reconhecimento.
Essa discussão também exige considerar que as experiências femininas não são universais. Falar sobre mulheres é falar também de classe social, raça, orientação sexual, território e identidade. A análise da interseccionalidade torna-se fundamental para compreender como diferentes formas de desigualdade se cruzam e impactam a vida de milhões de brasileiras.
Ser mulher na contemporaneidade é, portanto, resistir, reinventar-se e construir caminhos coletivos para transformar a sociedade. Em um país que ainda registra números alarmantes de violência de gênero, afirmar a igualdade material entre homens e mulheres não é apenas uma pauta social: é uma questão de direitos humanos.
Ser mulher hoje é continuar abrindo caminhos, ocupando espaços e reafirmando, todos os dias, que igualdade não é concessão é direito.

Dra. Fernanda Maria Costa Cerqueira – Advogada Criminal
Professora universitária. Doutora e Mestre em Direito Penal pela UFBA
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