O Relógio da Praça
Todos os dias, às cinco da tarde, Clara atravessava a praça central levando uma sacola de livros para a pequena biblioteca onde trabalhava. No mesmo horário, Miguel fechava sua oficina de relógios e saía para alimentar os pássaros perto da fonte. Durante semanas, os dois se cruzaram sem trocar mais do que um sorriso tímido.
Certa tarde, uma chuva repentina esvaziou a praça. Clara correu para se abrigar sob a marquise da oficina, mas um dos livros caiu numa poça. Miguel apareceu depressa, recolheu o volume e, com cuidado, secou a capa usando um pano macio.
— Histórias também precisam de conserto — disse ele.
Clara riu. Foi assim que começaram a conversar.
Nos dias seguintes, ela passou a entrar na oficina antes de seguir para a biblioteca. Miguel mostrava relógios antigos, cada um com seu ritmo e sua memória. Clara contava sobre personagens que atravessavam oceanos, enfrentavam medos e encontravam novos caminhos. Ele dizia que os relógios mediam o tempo; ela respondia que os livros ensinavam a vivê-lo.
Com o passar dos meses, a praça ganhou outro significado. Já não era apenas um lugar de passagem, mas o ponto onde duas rotinas haviam aprendido a caminhar juntas.
No aniversário de Clara, Miguel entregou-lhe um relógio de bolso restaurado. Dentro da tampa, havia uma frase gravada: “Para lembrar que os melhores momentos não se contam, se guardam.”
Emocionada, ela lhe deu um livro sem título. As páginas estavam em branco.
— Para escrevermos a nossa história — explicou.
Miguel sorriu, mas não prometeu finais perfeitos. Prometeu presença, paciência e verdade. Clara, por sua vez, prometeu nunca deixar que o medo falasse mais alto do que o afeto.
Anos depois, a oficina e a biblioteca continuavam em lados opostos da praça. Entre elas, Clara e Miguel construíram uma vida simples, cheia de conversas, café, pequenos gestos e silêncios confortáveis.
E, todos os dias, às cinco da tarde, o velho relógio da praça tocava. Para quem passava, eram apenas badaladas. Para os dois, era o som do instante em que o amor havia começado. Era também a certeza de terem escolhido permanecer.
“Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.”







