Pe. Domingos Mianulli: Quando amizade, cumplicidade e admiração se encontram profundamente
Breves bastidores e memórias de um jesuíta à frente do seu tempo, cuja maior obra foi a arte de ser amigo
Entre o rigor das missões e a leveza da convivência, o mestre fez-se pai e o discípulo fez-se herdeiro de uma sabedoria sem vaidades. Esta crônica de memória é o registro de uma amizade que desafiou distâncias e diagnósticos médicos, celebrando o jesuíta que via na diversidade humana a maior obra de arte do Criador.
Dizia Aristóteles que a amizade é “uma alma habitando dois corpos”. No caso de Domingos Mianulli (que nos deixou no último dia 26/04), essa alma era vasta, criativa, inquietante e profundamente acolhedora. “Napolitano nasci, soteropolitano eu sou!”, costumava dizer com o orgulho de quem recebeu o título de cidadão soteropolitano e fundiu o Mediterrâneo com a Baía de Todos-os-Santos. Como seu discípulo, tive o privilégio de caminhar ao lado do diretor mais longevo da história do Colégio Antônio Vieira, em Salvador-BA, um homem que não apenas geriu uma instituição, mas transformou milhares de vidas e esculpiu destinos através da criação do SUPLECAV (posteriormente renominado de EJACAV – escola noturna para jovens e adultos no Colégio Antonio Vieira) e depois a concepção e direção do Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica/CEAP, em parceira com a Prof. Dra. Maria Ornélia Marques, ONG – também educativa – que focava na formação de professores e jovens dos meios populares, através da realização de projetos sociais transformadores.
Nossas missões educativo-sociais pelo mundo eram verdadeiras aulas de humanidade. Enquanto muitos buscavam monumentos e Mecas do consumo, ele buscava o outro. “Não quero comparar nada”, dizia ele, “quero ver gente e continuar me admirando em não encontrar ninguém igual a ninguém!”. Essa percepção de que o ser humano é uma obra de arte irrepetível alimentava o seu faro único para descobrir talentos. Mianulli tinha a visão de um mestre que enxergava o ouro sob o barro; alçou pessoas de origens simples a grandes patamares, alterando trajetórias de vida inteiras porque soube identificar potenciais que nem os próprios indivíduos alçados imaginavam ter.
A admiração mútua que nos unia floresceu na convivência direta e sem filtros. Lembro da primeira semana de trabalho com ele – ainda como estagiário – após traduzir um texto de português para italiano, ele me disse sem pestanejar: “você até fala direitinho italiano, mas como escreve mal!”. A princípio tomei um choque… mas logo em seguida compreendi a sua forma de cuidar: provocar a reflexão. Daquele dia em diante, me esmerei em ter cuidado com as letras dobradas, tão caras à gramática italiana. E com pouco tempo já recebia elogios sinceros de progresso. Em outra oportunidade, ainda na semana inicial, sem querer tirei uma tomada de uma régua de extensão energética e eis que desliguei exatamente o desktop que ele trabalhava. A ponta de língua foi imediata: “Bruno, antes de fazer qualquer coisa, pense antes! Isso lhe fará muito bem! em tudo na sua vida!”
Cícero afirmava que “a amizade não é senão um perfeito acordo de todos os sentimentos humanos”. Esse acordo selou um pacto de lealdade que atravessou mais de duas décadas. O auge desta consagração foi o ingresso em sua intimidade napolitana. Ali conheci ‘Mimmo’, apelido carinhoso exclusivamente usado por seus familiares. Recordo-me, entre risos, de sua sagacidade e irreverência certa vez à mesa: ao perceber o zelo anfitrião de um sobrinho, disparava: “Já que te ofendes se não como tudo que ofereces, passarei a comer tudo que está na mesa!”. E assim o fez! Além de gourmet, era gourmand! Ou seja, além de apreciador da qualidade e do refinamento da preparação sofisticada, de paladar exigente, era também um entusiasta da mesa farta, o ‘bom garfo’, que não se contentava com pouco!
Era um homem sem as vestes do poder e da vaidade, revelando que a amizade incondicional, quase de pai para filho, se nutre de lealdade e simplicidade. Essa sua versão era a mais admirável: o seu ‘eu’ sem as máscaras das funções públicas que lhe impunham a formalidade dos papéis sociais que dele se esperava. Isso me fez lembrar do livro do Pe. Fábio de Mello: ‘quantos eus que não são meus?’… era bem isso.. muitas vezes a essência do outro permanece soterrada por identidades postiças e nem todos têm a chance de desvelá-la por completo… e acabam só por perceber uma faceta mais aparente da sua verdadeira alma generosa. Eu tive essa oportunidade… e me sinto privilegiado por isso!
Mesmo quando a vida o levou para Teresina-PI, Feira de Santana-BA e, finalmente, Fortaleza-CE (cidade derradeira de sua Páscoa), a distância geográfica nunca desfez nossa cumplicidade. Como ensinou Santo Agostinho: “Não se conhece ninguém senão pela amizade”. E eu o conhecia nos seus silêncios e nos conselhos que iluminavam caminhos, mas também nos arroubos de irritação. Afinal, ele era um ‘demasiado humano’. O desfecho carnal dessa jornada ocorreu em um leito de hospital, dentro de uma UTI, mas a metafísica da nossa união desafiou a medicina. Entre o coma e a consciência, estabelecemos uma linguagem final. Ao meu comando, o aperto de mão; ao meu apelo, o piscar dos olhos; à minha orientação, os seus lindos olhos azuis me acompanharam de um lado para o outro da cama. Emoção que guardarei para sempre… ele estava ali!!!
Sob olhar fixo de Mianulli, já convalescente, era a última lição do mestre: a confirmação de que, como dizia a máxima clássica, “um amigo fiel é uma proteção poderosa; quem o encontra, encontra um tesouro”. Mimmo partiu, mas seu legado – fincado na crença de que educar é acreditar no ser humano – permanece vivo na provocação do pensamento e na certeza de que a amizade verdadeira é, em si, um ato educativo e eterno. Ele não foi apenas um homem de Deus; foi um amigo para todos os momentos, capaz de alterar rumos apenas com o brilho de sua sabedoria e a firmeza das suas convicções, não vistas, mas transvistas pela sua sensibilidade e perspicácia únicas. Restarão em nossos corações as boas memórias e as inspirações que nos deixa… sempre na direção do Magis de si próprio.
Homenagem in memoriam do Ex-Diretor do Colégio Antônio Vieira, de Salvador-BA.
Bruno Olivatto
Ex-diretor do CEAP por 10 anos
Doutor em Educação, Pós-Doutorando em Saúde Coletiva e Pesquisador convidado no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia/UFBA.
Mas, orgulhosamente, seu eterno amigo!







