Presença feminina avança no transporte, mas ainda enfrenta desigualdades
A participação feminina no setor de transporte brasileiro tem crescido ao longo das últimas décadas, refletindo mudanças sociais, econômicas e culturais observadas no país. Mesmo com avanços importantes, a presença das mulheres ainda permanece minoritária em diversas áreas, especialmente nas funções operacionais. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados indicam que elas representam entre dezoito e dezenove por cento dos vínculos formais no setor. Quando o recorte considera atividades como condução de veículos de carga e passageiros, esse número cai para menos de cinco por cento, conforme informações da Secretaria Nacional de Trânsito.
Historicamente, o transporte foi construído como um ambiente predominantemente masculino. Durante grande parte do século vinte, atividades nos modais rodoviário, ferroviário, aquaviário e aeroviário eram culturalmente associadas aos homens. Esse cenário começou a mudar a partir das últimas décadas, impulsionado pela ampliação do acesso das mulheres à educação, à formação técnica e ao ensino superior. Além disso, transformações nas relações de trabalho e políticas voltadas à igualdade de oportunidades contribuíram para essa evolução.
De acordo com Antonio Luiz Leite, presidente da Fundação Memória do Transporte, essa mudança vai além da ampliação numérica da presença feminina. Ela representa uma transformação cultural significativa no setor. No transporte aeroviário, por exemplo, as mulheres inicialmente ocuparam funções como comissárias de bordo e, posteriormente, passaram a atuar em áreas técnicas, incluindo pilotagem e gestão aeroportuária. Nos sistemas ferroviário e metroviário, também houve avanço, com maior presença feminina em funções operacionais, administrativas e de engenharia.
O crescimento da participação feminina também começa a aparecer em segmentos tradicionalmente dominados por homens. No transporte rodoviário, há aumento no número de motoristas profissionais, gestoras e especialistas em logística. Já no transporte aquaviário, embora a presença feminina ainda seja reduzida, observa-se avanço em atividades portuárias, cargos de gestão e na formação de profissionais marítimos. Esses movimentos indicam uma mudança gradual, mas consistente, na composição do setor.
A memória institucional do transporte brasileiro registra trajetórias pioneiras que ajudaram a abrir caminhos para essa transformação. Um exemplo relevante é Anésia Pinheiro Machado, que na década de mil novecentos e vinte se tornou uma das primeiras mulheres do país a obter brevê de piloto, realizando voos que ganharam grande repercussão. Outra referência é Ada Rogato, que nas décadas seguintes realizou importantes expedições aéreas pela América Latina e pela Amazônia, tornando-se um nome reconhecido internacionalmente.
No contexto contemporâneo, novas trajetórias também ilustram essa evolução. A comandante Vanessa Cunha, atuante na navegação mercante, representa uma geração de mulheres que vêm ocupando funções técnicas e de comando no setor marítimo. Sua atuação evidencia tanto os desafios enfrentados quanto as oportunidades que começam a surgir para mulheres em ambientes historicamente masculinos.
A Fundação Memória do Transporte tem papel relevante na preservação dessas histórias. Por meio de acervos históricos e projetos audiovisuais, a instituição registra experiências de mulheres em diferentes modais, contribuindo para ampliar a visibilidade dessas trajetórias e valorizar a diversidade no setor. Essa iniciativa fortalece a compreensão sobre a evolução da participação feminina e destaca a importância de reconhecer essas contribuições.
Além do reconhecimento histórico, ampliar a presença feminina é estratégico para o futuro do transporte. Em um cenário marcado por digitalização, automação e integração de sistemas, a diversidade de perspectivas favorece a inovação e melhora a capacidade de gestão. Um setor mais diverso tende a compreender melhor as necessidades da sociedade, contribuindo para a criação de políticas, serviços e planejamentos mais inclusivos e eficientes. Assim, a ampliação da participação feminina se consolida como um passo essencial para o desenvolvimento sustentável do transporte no Brasil.
Fonte: Modais em Foco







