Protesto por justiça ao cão Orelha mobiliza Avenida Paulista
Centenas de pessoas ocuparam a Avenida Paulista, em São Paulo, para exigir justiça pelo cão Orelha e pressionar as autoridades a responsabilizar os adolescentes envolvidos em um caso de violência que chocou o país. O animal, um vira-lata cuidado por uma comunidade local na Praia Brava, em Santa Catarina, sofreu agressões graves no início de janeiro e morreu após ser submetido à eutanásia, devido à gravidade dos ferimentos. O ato público reuniu pessoas de diferentes idades, histórias e regiões, unidas pelo sentimento de indignação e pela defesa da vida animal como valor coletivo inegociável.
O protesto começou pela manhã em frente ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e se estendeu por horas, sustentado por palavras de ordem e cartazes que pediam punição exemplar e o fim da impunidade. Muitas pessoas vestiram roupas pretas e camisetas com a imagem de Orelha, acompanhadas de mensagens que transformavam a dor em mobilização. Famílias levaram seus próprios animais para simbolizar que a causa ultrapassa um caso isolado e representa a proteção de todos os seres vulneráveis diante da violência e da negligência social.
Durante a manifestação, participantes levantaram debates que extrapolam o episódio específico e alcançam temas estruturais, como a responsabilização legal de adolescentes em crimes violentos. A psicóloga Luana Ramos defendeu a discussão sobre a redução da maioridade penal em situações extremas, argumentando que atos de crueldade não podem ser tratados como simples erros. Para ela, a reação social e institucional diante do caso expõe desigualdades profundas, relacionadas a raça e classe social, que influenciam a forma como crimes são julgados e como a comoção pública se manifesta.
Relatos de tentativa de intimidação de testemunhas por familiares de envolvidos reforçaram o sentimento de revolta entre os manifestantes. Advogados, protetores independentes e cidadãos comuns destacaram que a legislação atual ainda falha em coibir de forma eficaz a violência contra animais. A advogada Carmen Aires participou do ato ao lado da filha e de cães adotados, defendendo penas mais severas e políticas públicas que tratem os maus-tratos como crimes graves, capazes de indicar riscos futuros de violência contra pessoas.
Organizações da sociedade civil também foram lembradas como peças centrais na prevenção e na educação. A Ampara Animal, por exemplo, oferece materiais educativos que alertam para a relação entre agressões a animais e outras formas de violência, inclusive contra mulheres. Especialistas e ativistas reforçaram que investir em educação, empatia e responsabilização é essencial para romper ciclos de crueldade que se repetem diariamente, muitas vezes longe das manchetes.
O casal Thayná Coelho e Almir Lemos, visitantes de Belém, aderiu espontaneamente à manifestação ao tomar conhecimento do caso. Para eles, a reação fria dos agressores e as tentativas de minimizar o ocorrido revelam uma sensação de privilégio perigosa, que naturaliza a violência. Ao final do ato, ficou evidente que a morte de Orelha se tornou um símbolo maior: a exigência de que nenhuma forma de vida seja tratada como descartável e de que a justiça atue com firmeza, transparência e igualdade, para que casos assim não se repitam.
Fonte: Agência Brasil







