Sob o Mesmo Céu
Entre duas cidades, havia uma estrada longa o bastante para cansar os olhos, mas nunca forte o suficiente para enfraquecer o amor de Clara e Miguel. Ela morava perto do mar, onde as manhãs chegavam com cheiro de sal. Ele vivia entre prédios altos, buzinas apressadas e noites iluminadas por janelas que pareciam estrelas.
Todos os dias começavam do mesmo modo. Antes mesmo de abrir completamente os olhos, Clara procurava a mensagem de Miguel. Às vezes, ele enviava apenas um “bom dia”. Em outras, descrevia o céu visto de sua varanda, como se quisesse dividir com ela cada nuvem. Clara respondia contando sobre o vento, o movimento das ondas e a saudade que acordava antes dela.
Durante o dia, trocavam fotografias, pequenas histórias e planos. Um café servido às pressas, uma música ouvida no ônibus, uma rua bonita encontrada por acaso: tudo se transformava em ponte. A distância deixava de ser medida em quilômetros e passava a caber na tela de um telefone.
À noite, quando o silêncio ocupava as casas, eles se encontravam por ligação. Miguel apagava as luzes do quarto e abria a janela. Clara fazia o mesmo. Então procuravam uma estrela brilhante e fingiam estar lado a lado, sob o mesmo céu. Conversavam sobre o trabalho, os medos, as lembranças e a vida que desejavam construir. Sonhavam com uma casa cheia de plantas, uma mesa grande para receber amigos e uma varanda onde pudessem assistir juntos aos amanheceres.
Os reencontros eram esperados como quem espera chuva depois de uma longa estação seca. Cada passagem comprada virava promessa. Cada calendário marcado se tornava motivo para sorrir. Quando finalmente se abraçavam, as cidades desapareciam, as estradas perdiam importância e o tempo parecia pedir licença para passar mais devagar.
Mas toda despedida trazia um aperto. Na plataforma ou no aeroporto, eles seguravam as mãos até o último instante. Não escondiam a tristeza, porém também não permitiam que ela definisse o que sentiam. Sabiam que amar à distância exigia coragem, confiança e paciência.
Certa manhã, Miguel enviou uma fotografia do nascer do sol e escreveu que aquela seria uma das últimas vezes em que veriam o amanhecer separados. Ele havia recebido uma oportunidade de trabalho perto da cidade de Clara. Meses depois, chegaram juntos à nova casa, levando caixas, sonhos e a certeza construída em cada conversa.
Naquela casa, guardaram bilhetes, passagens e fotografias como lembranças do caminho percorrido. Cada objeto recordava que a espera também havia ensinado cuidado, presença e gratidão pelos instantes compartilhados em cada reencontro.
Na primeira noite, abriram a mesma janela. O céu continuava imenso, mas a estrada já não os dividia. A distância havia separado seus corpos por algum tempo, porém jamais conseguira afastar seus corações.
“Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.”







