Uefa anuncia boicote contra plano da Fifa para atrair investidores privados
A Uefa anunciou nesta quinta-feira (30) que suas 55 federações nacionais deixarão de participar de competições organizadas pela Fifa enquanto permanecer em discussão a proposta de abertura da FIFA Forward Enterprise (FFE) a investidores privados. A decisão foi tomada de forma unânime durante uma reunião emergencial e poderá atingir torneios como a Copa do Mundo Feminina de 2027, prevista para ocorrer no Brasil.
Apresentado pela Fifa na terça-feira (28), o projeto prevê a criação de uma subsidiária responsável por concentrar direitos comerciais e operações de eventos, incluindo transmissão, patrocínios, licenciamento, venda de ingressos, hospitalidade e organização dos campeonatos. A FFE teria avaliação inicial de US$ 20 bilhões, mas a intenção anunciada é captar até US$ 4,2 bilhões mediante a venda de participações minoritárias e sem controle da empresa.
Segundo a Fifa, a entidade manteria o comando da subsidiária e a autoridade exclusiva sobre regulamentos, calendários e decisões esportivas. O dinheiro obtido seria destinado à ampliação de programas de desenvolvimento oferecidos às 211 associações filiadas. A proposta ainda depende do apoio da maioria das federações nacionais e da aprovação das mudanças necessárias pelo Conselho da Fifa.
A Uefa, porém, considera que a entrada de investidores criaria pressões permanentes por retorno financeiro e poderia colocar interesses comerciais acima das necessidades do futebol. Em comunicado oficial, a entidade afirmou que a Copa do Mundo representa um legado construído por atletas, seleções e torcedores ao longo de gerações e, portanto, não deve ser transformada em produto de investimento.
A organização europeia também criticou a forma como o plano foi elaborado e apresentado, alegando falta de consulta ampla e transparência. Como condição para encerrar o boicote, a Uefa exige o abandono integral da proposta e garantias vinculantes de que a Fifa não permitirá, futuramente, participação privada na propriedade de suas competições ou estruturas de governança.
A Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, América Central e Caribe, também rejeitou o projeto, embora não tenha aderido formalmente ao boicote europeu. A Confederação Asiática de Futebol manifestou preocupação com o processo, o prazo estabelecido e a ausência de análises detalhadas sobre governança, aspectos jurídicos e impacto financeiro.
A Fifa informou que a Thrive Eternal, ligada ao empresário Joshua Kushner, deverá liderar o grupo de investidores caso o modelo seja aprovado. A proposta conta ainda com assessoria financeira para estruturar a operação. A proximidade entre Gianni Infantino e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou críticas e questionamentos políticos em torno da iniciativa, especialmente depois da Copa do Mundo masculina de 2026, disputada na América do Norte.
O confronto lembra a pressão realizada pela Uefa em 2021 contra a possibilidade de organizar o Mundial a cada dois anos. Na ocasião, a resistência europeia contribuiu para o abandono do projeto. Agora, a ameaça de ausência das seleções do continente amplia a crise institucional e pode comprometer a força esportiva, comercial e simbólica das próximas competições da Fifa. O impasse aumenta a pressão por negociações transparentes antes de qualquer votação definitiva entre as 211 associações filiadas à entidade.
Confira na íntegra a nota oficial divulgada pela Uefa:
”A UEFA e suas 55 associações-membro estão unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados.
A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela deve jamais ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.
É tanto irresponsável quanto indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa àqueles encarregados de cuidar do esporte. Isso não é apenas uma falha profunda de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial.
As associações nacionais ao redor do mundo estão agora diante de um ultimato: aceitar a apropriação irreversível das maiores competições do futebol ou arcar com as consequências. Isso não é uma “decisão democrática”, mas uma governança por intimidação — um ato de coerção indigno de uma instituição responsável por administrar o esporte global.
Mas nossa oposição vai muito além do processo.
No momento em que investidores externos adquirirem participações de propriedade em competições da FIFA, o futebol mudará para sempre. O retorno comercial se tornará uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores se transformarão em uma pressão diária. A partir desse momento, cada decisão sobre o calendário internacional, cada decisão sobre os formatos das competições e cada decisão que molda o futuro do futebol deixará de ser guiada pelo que melhor serve ao esporte, passando a ser orientada pelo que melhor atende aos acionistas.
Esse modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo primeiro dever é maximizar o retorno financeiro. Tampouco os interesses das associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores podem se tornar subordinados aos retornos dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro em troca de ganhos financeiros.
A posição da Europa é clara. Nunca daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas detém em confiança para a próxima geração.
Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que sejam totalmente abandonadas e garantias vinculantes sejam dadas de que a FIFA jamais voltará a abrir sua governança ou competições à propriedade privada.
Que não haja dúvidas: a UEFA e suas associações nacionais se oporão a esses planos com determinação absoluta.
Há momentos em que instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.
Há coisas que são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E enquanto a Europa tiver voz, nunca estará à venda”.







