Um Tributo ao Jornalismo Lento
por: Bruno Olivatto
A ideia desta coluna é refletir sobre coisas do cotidiano, ligadas especialmente, mas não apenas, à educação e à cultura… e está numa perspectiva bem ampla… considerando, inclusive, muito das alterações que as tecnologias digitais têm provocado na nossa vida. Mas devo dizer, diante mão, que meu jeito de ver e compartilhar percepções por aqui refletem tão somente um ponto de vista, nunca trago a verdade absoluta… até porque a pretensa totalidade de verdade é, em realidade, a não-verdade! Minha única ambição sincera é ser uma lente contributiva para o seu próprio processo reflexivo.
Dito isso, queria pensar materializando em texto a necessidade de fazermos uma espécie de tributo ao jornalismo lento. Isso mesmo…. uma reverência ao jornalismo lento! Mas por quê? Bem, eu acho que em razão de todos nós estarmos cercados permanentemente por mídias logo, informações sem fim via feeds intermináveis, além da disseminação de notícias também pelas mídias clássicas, como a tv, o rádio e o próprio jornal impresso – que continuam vivos – estamos num tempo de aceleração mental (entre outras) alucinante. E, por consequência, eu poderia dizer que estamos sob uma ‘ditadura do agora’ porque todos os veículos de notícia cobram a si próprios por agilidade/velocidade na divulgação/compartilhamento das matérias. Todos querem ser o primeiro a dizer alguma coisa relevante. O problema é que esse império da velocidade é contraprodutivo para o jornalismo e a aprendizagem. Do ponto de vista pedagógico, por exemplo, é muito ruim porque o ritmo alucinante com que temos acesso e “pensamos” implica uma capacidade cognitiva de processamento meio robótica, sobre-humana. Ou seja, é impossível pensarmos rapidamente com profundidade diante de uma profusão louca de informações. Aliás, isso tem nome… estamos sob a égide da ‘dromocracia’. Trata-se de um regime de poder da velocidade!
Para ser enfático, quero dizer que a sociedade contemporânea (e o jornalismo, claro!) está estruturado para ser vivido dentro de uma lógica de velocidade não humana. O conhecimento em profundidade, contudo, pressupõe uma certa lentidão… tempo para maturação das informações. Assim, há aqui uma provocação pedagógica que nos exige uma contundente valorização de um outro tipo de jornalismo… esse agora mais lento… que tenha uma outra concepção de produção da notícia. Essa lógica da ‘domocracia’ é, na verdade, o sequestro total da reflexão pela pressa! Você troca uma coisa pela outra. Mas, pense, tudo tá sendo ‘consumido’ de modo muito aligeirado e isso lhe afasta da reflexão densa. O que você quer? A ilusão do saber ou a experiência efetiva da reflexão que gera uma alteração no seu modo de ser? Talvez estejamos precisando de uma dieta de mídia suportada num paradigma mais cognitivo, ou seja, uma dieta que lhe permita efetivamente pensar sobre o que se lê e não se iludir com a quantidade de coisas que se tem acesso pela conexão. Não pode ser mais importante a velocidade de quem produziu a notícia (e a consequente entrega dessa produção) em detrimento da qualidade da afetação que ela vai lhe proporcionar. A produção jornalística atual vive um ‘fast food informacional’. Essa forma de produção altera o nosso jeito de interpretar as leituras. A velocidade da produção e da circulação favorece a sensação de saber por meio de fragmentos de fatos que nos iludem… achamos que estamos bem informados, mas na verdade estamos mesmo é cada vez mais incapazes de produzir sentidos sobre o lido! Aos fragmentos faltam contextos, verticalização dos fatos e problematização porque o importante tem sido dizer logo, rápido, perseguir o ‘furo’ jornalístico, ao invés do rigor e da didática do esclarecimento que as notícias/matérias implicam. Não estamos adensando os acontecimentos! Isso é a matéria prima para a banalização de qualquer aberração.
O jornalismo lento, em contrapartida, requer uma curadoria criteriosa, uma sensibilidade criativa e técnica que vai além do que aconteceu… mas como aconteceu, por que aconteceu e as ligações desse acontecimento com outros, aparentemente não conectáveis entre si. O jornalismo lento é contra hegemônico… tá na contramão do que tem sido a regra, embora existam exceções. O jornalismo lento não quer apenas que você esteja bem informado, nem tão pouco, saturado de estímulos… ele quer e deseja formar novos modos de vida, novos jeitos de ser, novas sensibilidades humanas. Ele busca provocar mais contemplação e reflexão e menos mera agitação mental.
Essa reflexão tem tudo a ver, inclusive, com a própria ideia de democracia… porque o debate público exige uma escuta no outro ritmo… uma escuta advinda de um processo mais lento. E o jornalismo de profundidade é talvez um efetivo exercício ético de alteridade porque, na verdade, está se preocupando com o outro, com a qualidade da recepção e percepção de mundo do outro. Isso quer dizer que o jornalismo lento modifica nosso jeito ético, estético, político… uma vez que ele contribui para um outro patamar de existencialidade crítica. Esta coluna inaugural é um tributo ao jornalismo lento e, ao mesmo tempo, é um clamor pela pausa. “A vida pede um pouco mais de calma” … já dizia o compositor Lenine. Pense sobre isso, converse sobre isso, seja coautor dessa reflexão a partir dos seus pontos de vista e produza, assim, novas humanidades.
Até a próxima!
Prof. Dr. Bruno Olivatto (bolivatto@gmail.com)
Pedagogo e Professor do Programa Avançado de Saúde Coletiva com concentração em Saúde Digital do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia/ISC-UFBA.
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