Vender-se para existir: precarização e cansaço do olhar
Vivemos em um tempo onde a existência parece condicionada à sua visibilidade. Se um pássaro canta em uma floresta deserta, ele emite um som; se um indivíduo realiza um ato de cultura ou aprendizado e não o converte em um post, ele de fato existiu? Esta provocação inicial nos lança ao centro de um “nó górdio” contemporâneo: como a fusão entre a cultura do espetáculo, a lógica financeira e os processos de formação está redesenhando não apenas o que fazemos, mas quem somos? A questão que nos mobiliza hoje é urgente: em que medida a nossa obsessão por “vender” uma imagem de sucesso e produtividade está aniquilando a nossa capacidade de aprender, de criar laços reais e de nos percebermos como parte de um tecido social coletivo, e não como meras empresas de um homem só?
Guy Debord (no seu livro ‘A sociedade do Espetáculo, 1967) já nos alertava que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Hoje, essa profecia ganhou uma camada mais perversa: a financeirização da vida. Tudo – do nosso tempo livre ao nosso conhecimento técnico – é lido como “capital humano”. Não estudamos mais para expandir os horizontes da alma ou para compreender a complexidade do mundo, mas para “valorizar nossos ativos”. A educação, que deveria ser o solo da emancipação, corre o risco de se tornar um balcão de negócios de competências rápidas, onde o diploma é menos um rito de passagem e mais um produto com selo de retorno sobre investimento. Como dizia o poeta mexicano Octavio Paz: “A cultura é um diálogo, memória dos povos, não um monólogo de mercadorias”. Quando transformamos a formação em um espetáculo de métricas, o diálogo morre.
Nesse cenário, o “empreendedorismo de si” surge como a tábua de salvação que, ironicamente, nos afoga. Ao sermos convencidos de que somos os únicos responsáveis pelo nosso sucesso ou fracasso, aceitamos a precarização laboral com a resignação de quem cumpre um destino. O motorista de aplicativo, o professor tutor de plataformas digitais e o artista que vive de “likes” compartilham o mesmo DNA: a solidão do autogerenciamento. A lógica financeira nos isola em nossas bolhas de performance, onde o outro não é um companheiro de jornada ou de luta social, mas um concorrente no mercado das atenções. Estamos na era da Economia da Atenção! E a desmobilização social é o subproduto mais eficaz dessa cultura: indivíduos exaustos pela gestão de suas próprias carências raramente têm forças para reivindicar direitos coletivos. O isolamento é o novo escritório da precariedade.
A educação e a cultura, portanto, enfrentam o desafio de romper essa redoma de vidro. Se a formação se resume a aprender a “vender o peixe”, perdemos o pescador e o mar. Precisamos resgatar o que o filósofo alemão – Adorno – chamava de Bildung: a formação humana integral que resiste à mera utilidade técnica! A cultura não pode ser apenas o entretenimento que preenche o vazio entre uma jornada de trabalho e outra; ela deve ser o espelho que nos devolve a imagem das nossas contradições. Precisamos de uma pedagogia da pausa, que desmantele a urgência do espetáculo e nos permita o luxo de sermos “inúteis” para o mercado, mas essenciais para a vida. Afinal, como nos lembra Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
O risco que corremos é o de nos tornarmos impecáveis vitrines vazias. O brilho excessivo da cultura do espetáculo ofusca a visão de que, por trás das telas e dos gráficos de rendimento, há uma humanidade que clama por pertencimento e por um trabalho que não a desintegre. Se continuarmos a confundir formação com formatação, e cultura com vitrine, estaremos apenas aprimorando a nossa própria obsolescência.
Ao fechar esta página e retornar à sua rotina de afazeres sem fim, metas, prazos e notificações, convido-o a uma última reflexão: no final do dia, quando as luzes do palco se apagam e a bateria do celular silencia, o que resta de você que não seja um produto para o consumo alheio?
Pense sobre isso, converse sobre isso e faça o conhecimento circular!
Até a próxima coluna!
Prof. Dr. Bruno Olivatto (bolivatto@gmail.com)
Pedagogo e Professor do Programa Avançado de Saúde Coletiva com concentração em Saúde Digital do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia/ISC-UFBA.
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