Vozes que Rompem o Silêncio e Exigem Ação do Estado
Mulheres de todas as idades, identidades e origens se reuniram em Brasília para transformar indignação em força coletiva. O ato Levante Mulheres Vivas, organizado simultaneamente em diversas capitais brasileiras, mobilizou milhares de pessoas que denunciaram o avanço da violência contra a mulher, os feminicídios e a persistente omissão do Estado. Com coragem e solidariedade, as manifestantes ocuparam espaços públicos para afirmar que suas vozes seguem vivas, potentes e inegociáveis.
Mesmo sob forte chuva, o ato na Torre de TV uniu lideranças, coletivos culturais, parlamentares e movimentos sociais. As falas ressaltaram que o feminicídio não é um problema isolado, mas um reflexo de estruturas históricas que colocam mulheres em situações contínuas de vulnerabilidade. As performances artísticas ampliaram a mensagem política e emocionaram o público. Entre elas, destacou-se a rimadora Elisandra “Lis” Martins, integrante da Batalha das Gurias, que transformou poesia e revolta em denúncia. Suas palavras ecoaram como um grito coletivo contra agressões, abusos e silenciamentos.
O Levante ganhou força nacional após uma sequência de feminicídios brutais que chocaram o país. As mortes expuseram, mais uma vez, a incapacidade das instituições de agir com rapidez, sensibilidade e rigor. No Distrito Federal, ativistas como a doutora em ciências sociais Vanessa Hacon denunciaram a violência institucional vivida por mulheres que tentam buscar ajuda no sistema de Justiça. Muitas passam do ciclo da agressão para o ciclo da revitimização, ouvindo frases que culpabilizam e desacreditam suas denúncias. Essa violência processual, segundo ela, impede medidas protetivas, desestimula a denúncia e fortalece a impunidade.
As manifestações também chamaram atenção para o papel do patriarcado na manutenção da desigualdade de gênero. Representantes de movimentos negros e feministas lembraram que a combinação de machismo, racismo e desigualdade socioeconômica amplia ainda mais os riscos para mulheres negras, periféricas e LGBTQIA+. As participantes reforçaram que compreender o patriarcado como estrutura é essencial para enfrentar a “epidemia” de feminicídios que assola o país e que políticas públicas devem reconhecer essa interseccionalidade para serem eficazes.
O diálogo sobre o papel dos homens esteve presente em diversas falas. Lideranças destacaram que a transformação social exige que eles reconheçam sua responsabilidade na desconstrução da masculinidade violenta. Homens aliados devem participar do debate, rever comportamentos e colaborar na construção de uma cultura de respeito e equidade.
Outro tema central foi o impacto da desigualdade econômica na violência de gênero. Mulheres como a empreendedora Aline Karina ressaltaram que autonomia financeira é uma ferramenta decisiva para romper ciclos de agressão. A falta de renda, emprego e moradia segura mantém milhares de mulheres em relações abusivas, aumentando o risco de feminicídio. Projetos de economia solidária e afroturismo, como o que Aline lidera, surgem como alternativas concretas para fortalecer a independência e a autoestima das mulheres.
A mobilização destacou ainda a necessidade urgente de ampliar investimentos em políticas públicas. Sem orçamento, equipes qualificadas, dados confiáveis e programas contínuos, o Estado não consegue prevenir, proteger ou punir adequadamente. As manifestantes lembraram que a violência contra a mulher não é um problema privado: é uma questão nacional que exige ação imediata.
As histórias que motivaram os atos – entre elas a mutilação de Tainara Souza Santos, o assassinato de duas funcionárias do Cefet-RJ e a morte da cabo Maria de Lourdes – reforçaram que o Brasil enfrenta uma crise profunda. Em 2024, mais de 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídio, e em 2025 o número já ultrapassa 1.180 casos. Cada vida perdida exige memória, justiça e transformação.
O Levante Mulheres Vivas mostrou que as mulheres brasileiras seguem firmes, mobilizadas e exigindo respostas. Elas reivindicam dignidade, políticas públicas efetivas e um país onde viver não seja um risco.
Fonte: Agência Brasil






